Brasil vai para oitava temporada sem treinadores nas ligas da Europa

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É preciso voltar a 2010/11 para reencontrar o último treinador brasileiro numa das cinco ligas de maior peso da Europa: foi Leonardo, hoje dirigente no Milan, o representante do nosso país à frente da Inter de Milão. De lá para cá, passaram-se oito anos e incríveis 435 técnicos pelas elites de Inglaterra, Espanha, Itália, Alemanha e França, incluindo a temporada atual, de início espalhado pelo mês de agosto.

Obviamente, nenhum deles é brasileiro.

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Os números são de fato espantosos e sugerem o debate em torno da realidade brasileira: por que os nossos treinadores custam a emplacar trabalhos na considerada nata do futebol?

Bem, é impossível responder a essa pergunta apontando apenas uma causa. Há alguns caminhos a serem explorados – e por isso nós reviramos nomes e nacionalidades em planilhas e ouvimos os especialistas.

Outras nacionalidades:

  • País de Gales: 6
  • Irlanda, Sérvia e Uruguai: 4
  • Áustria, Croácia, Dinamarca e Suíça: 3
  • Irlanda do Norte, Noruega e Romênia: 2
  • Armênia, Bélgica, Bósnia, Bulgária, Chile, Estados Unidos, Finlândia, Guiné-Equatorial, Hungria, México, República Tcheca, Senegal e Ucrânia: 1

Aqui, uma prova de que a Europa não está fechada para sul-americanos. A Argentina lidera após os países que hospedam as ligas com 15 treinadores no período – seguida por Uruguai (4), Chile e México (1). Note-se que há representantes de Armênia, Bósnia, Bulgária, Finlândia, Guiné-Equatorial, Hungria, Noruega, Romênia, Ucrânia, dentre outras escolas pouco expressivas.

Muitos dos latinos tiveram a porta de entrada via Espanha (62% dos 37 trabalhos foram lá), é verdade, mas houve quem se aventurasse por Alemanha, França, Inglaterra e Itália sem o conhecimento do idioma. Mas se ir para o Japão e mundo árabe nunca foi problema, por que a resistência com a Europa?

Também é necessário levar em consideração a exigência da licença da Uefa Pro para treinar na elite europeia – ou habilitações que a entidade aceite como equivalente, como é o caso da ATFA (Associação de Treinadores do Futebol Argentino).

No Brasil, a CBF conseguiu o reconhecimento de seu curso de qualificação através da Conmebol, mas é preciso que o treinador tenha pelo menos cinco anos de futebol profissional desde o recebimento da licença Pro – a primeira turma se formou há apenas três anos.

O dinheiro é outro ponto abordado como argumento de defesa. Muitos indicam que o salário pago na Série A brasileira é bom o suficiente para justificar um pé atrás quanto a se aventurar em clubes de médio e pequeno portes na Europa.

A auditoria e consultoria Ernst & Young (EY), em parceria com a CBF, traçou neste ano um quadro sobre a remuneração no futebol brasileiro. A consultoria colheu os dados sobre salários e políticas trabalhistas de 19 dos 40 clubes das Séries A e B. Em média, cada treinador da Série A recebe R$ 70 mil.

Na Premier League inglesa, a mais valorizada da Europa, um levantamento do diário “Daily Express” mostrou que a média salarial de um treinador é de 382 mil libras mensais (R$ 1,7 milhão na cotação atual). Mas, por mais que seja a liga de maior aceitação de estrangeiros, chegar lá diretamente do Brasil ainda seria algo inédito…

O que eles pensam?

Perguntamos aos especialistas por que o Brasil está há tanto tempo sem um treinador nas principais ligas da Europa. Veja as respostas abaixo:

Mano Menezes

*Técnico do Cruzeiro e habilitado com a licença Uefa Pro.

“Em primeiro lugar, nossa formação não é reconhecida na Uefa. Então, nós não temos autorização para trabalhar lá. Isso já fecha o primeiro mundo do futebol como um todo. Cada vez mais esse espaço está sendo restrito. Essa situação está se estendendo, já existe na Ásia, no mundo árabe, então nós precisamos, em curto prazo, chegar a um acordo para esse reconhecimento e qualificar nossa formação aqui dentro do país, que já está melhorando muito. Mas isso passa primeiro pela Conmebol, nem passa pela CBF, pois a Fifa não dá reconhecimento para Federações, ela dá para Confederações. Então a nossa Conmebol também precisa trabalhar para que a gente tenha esse direito”.

Milton Mendes

*Técnico desempregado e habilitado com a licença Uefa Pro.

“Temos que organizar como é feito o nosso curso no Brasil. Acredito que em três ou quatro anos já conseguiremos ser considerados treinadores com capacidade de trabalhar na Europa. Para trabalhar no Brasil hoje você só precisa de uma identidade. A minha avó pode ser técnica – desde que alguém acredite nela. Precisamos de credibilidade. Se em todas as áreas é assim, por que no futebol, que envolve milhões de reais, paixão, qualquer um pode ser treinador? Isso distanciou muito os brasileiros dos grandes cenários. Hoje não temos a chancela da Uefa, os argentinos têm. Por que? Será que lá dão mais credibilidade? É um tema para pensar.

A língua é importante, mas ela é um teto solar em um carro. Vai deixar mais bonito, mas não é fundamental

Se alguém quiser o Tite, digamos que o Liverpool, ela não vai fazer diferença alguma. O Tite iria, em princípio com o seu tradutor, e depois aprenderia a língua. O inglês não é difícil. Difícil são o russo, japonês, árabe… Isso é conversa para boi dormir.

Eu fui ganhando menos para Portugal para poder estar numa cultura diferente. Sabia que o meu crescimento seria maior, teria mais alguma coisa lá fora. Lá comecei a ver que o futebol não era tão bom quanto no Brasil, mas era mais organizado. E quem se organiza se desenvolve. Lá eles valorizam quem estuda, aqui depreciam.

Quando o campeonato é longo, em algum momento vai acontecer a queda (de rendimento). E quando existe a queda já começam a dizer no Brasil que o treinador está com problemas, que perdeu o vestiário. Isso é moda.

Ninguém consegue fazer absolutamente nada com 10 jogos. É difícil planejar em cima só de resultado quando você tem a pressão desses clubes. Muitos vivem com o nome, comem banana e arrotam caviar.

Querem dar um passo maior que a perna, entrar nos campeonatos para ser campeões só porque já foram antes, sem saber o seu real valor. Nos filmes do Sherlock Holmes e no futebol só têm um culpado: o mordomo e o treinador.

O calendário é apertado. Digamos que você tenha em média seis jogos no mês – se perde quatro não emplaca o segundo mês. E mais: as pessoas não estão preocupadas em fazer um trabalho para o clube. Elas querem ser reeleitas, querem comprar, gastar para que ganhe o título e depois levar os louros da vitória. A dívida fica para o próximo. Por essas e outras tenho dúvidas se as pessoas querem mesmo mudar. Será que querem trabalhar, estudar? Ou ficar só na beira da praia mesmo?”.

Muricy Ramalho

*Ex-técnico e comentarista do SporTV.

“Nós ainda não temos a licença que já deveríamos ter tido há algum tempo. Quando conheci o pessoal na CBF cobrei para ter o curso que se tem na Europa – e que seja reconhecido como o argentino. Esse é o principal motivo, mas também tem a língua. A gente não se prepara tanto. É um problema nosso de não correr atrás, de não estudar. Há algum tempo atrás, os treinadores, mais da minha geração, ganhavam muito bem nos clubes, não havia preocupação de sair. A gente se acomodou um pouco por esse lado.

As pessoas pensam no seu bem-estar, a vida de treinador é inconstante, tem muito disso também. Ele (técnico) tem um contrato bom e não abre mão, pois precisa matar um leão a cada dia. E aí fica receoso de sair para um lugar que não conhece muito.

Mas nós não temos a ideia de permanecer nos times por muito tempo. Isso também é retrato dos amadores que dirigem os clubes.

Aqui não se contrata por convicção, filosofia, e sim porque está na moda, porque o nome foi soltado na internet e agradou, gerou simpatia. Os europeus vêm acessar o currículo de um treinador daqui e veem que mudou de clube várias vezes. Vão chegar à conclusão de que ele não é bom. Isso faz a diferença”.

Leo Samaja

*Treinador Licença Profissional ATFA atualmente trabalhando no futebol Espanhol e Coordenador da ATFA (Associação de Treinadores do Futebol Argentino).

“Não é só a licença. Ela é uma base, um sustento. A licença argentina já tem muitos anos de mercado – mais de 30 de obrigatoriedade e mais de 50 de formação. Tem o prestígio que outras escolas não têm para competir na Europa. Isso leva tempo.

Mas o que o treinador brasileiro não tem lá fora é credibilidade. É um perfil que tem dificuldades com a troca de cultura. Você vê treinadores brasileiros que chegam ao futebol do exterior e precisam levar brasileiros para trabalhar. Isso é algo muito comum. Se não há brasileiros, ele não se sente confortável. E isso, claro, rompe com o trabalho de grupo.

Por outro lado, há a falta de criatividade, de trabalho formal em relação ao novo futebol que vem se desenvolvendo há quase 20 anos. Essas novas tendências técnicas que são trabalhadas, infelizmente o brasileiro não alcançou ainda.

O que se observa é que a CBF está querendo conquistar o espaço brigando, exigindo, em vez de conquistá-lo. A AFA conquistou com tempo, com fatos. Ela vem formando treinadores que são referências no mundo. A referência de Guardiola, por exemplo, é o Marcelo Bielsa. E não é só disposição tática. Os argentinos que assumem projetos também assumem mudanças. Treinadores que têm espaço no futebol de elite realizam grandes transformações. Diego Simeone transformou o Atlético de Madrid de um menor a um grande que foi a duas finais de Champions. Quem foi escolhido para assumir o Barcelona após a saída de Guardiola foi o Tata Martino.

Há uma confiança no profissional argentino, pois ele primeiro consegue se adaptar a qualquer cultura, independentemente da língua, uma desculpa dos brasileiros. Se você hoje assiste a entrevistas do Bielsa verá que ele não fala inglês e tem seu tradutor do lado. Com o Pochettino foi a mesma coisa: não falava inglês e hoje sabe, mas começou com uma transformação institucional. A função do treinador argentino vai além do campo, é um transformador. É algo que o brasileiro ainda não conseguiu enxergar. E só encontra justificativas. Da língua, idioma, e a CBF que quer impor essa aceitação no mundo.

Digamos que consiga que a Fifa coloque uma chancela: vai fazer com que os clubes grandes da Europa confiem nos treinadores brasileiros? Não. Isso se conquista com o tempo.

Você vê o futebol brasileiro e não tem criatividade. Não há ousadia. Então se tornou um futebol chato, sustentado por jogadores que vão surgindo com grande destaque e isso acaba fazendo a diferença.

O dinheiro é outra justificativa, mas olha a incoerência da discussão. O treinador brasileiro está exigindo espaço na Europa, mas diz que não vai porque ganha melhor no Brasil. Se está querendo ir, sabendo quais são as condições de clubes menores, imagino que vá aceitar qualquer outra proposta, não? Cito o caso do Turco Mohamed, que estava no México. Ele recebe três vezes menos no Celta de Vigo. O dinheiro nesse ambiente é um tema completamente secundário, pois os treinadores que estão reclamando por esse espaço e usam essa justificativa são treinadores que já não precisam do dinheiro para viver.

Hoje o futebol europeu não acredita no profissional brasileiro. A nova geração de brasileiros que está buscando qualificação tem grande responsabilidade e desafio em reconquistar a confiança desse mercado. E isso vai levar muito tempo. Primeiro eles têm que conseguir espaço no Brasil, o que já é complicado, romper essa vergonha, o medo de ser diferente. Pega hoje um novo treinador, e por ter medo de implementar um novo traço, ele dá um passo atrás em suas ideias só para manter o trabalho.

O Brasil está cheio de clubes que empregam familiares e amigos dos diretores. Esse é o grande problema, a pedra a ser devastada pelo Brasil. Quando conseguir isso, o Brasil vai recuperar o lugar que nunca deveria ter deixado, a liderança”.

Carlos Eduardo Mansur

*Jornalista de O Globo.

“Um ponto fundamental é que, se observarmos o sucesso de sul-americanos na Europa, boa parte deles tem em comum o início por clubes menores. Até que recebam uma chancela, quase um selo de sucesso e se estabeleçam depois em clubes maiores. Tenho uma grande dúvida se o treinador brasileiro, num mercado que paga tão bem a treinadores de elite, tem como plano de carreira e disposição passar por essa etapa – além da questão de vaidade e disposição de encarar dificuldades de trabalhar num clube menor. Tudo isso me faz ter dúvida. Como Pellegrini no Villarreal, Simeone no Catania, Pochettino no Espanyol…

Há outros aspectos. O brasileiro vive uma realidade muito distinta do futebol europeu. O hábito de vestiários globais é uma outra realidade que exige uma outra adaptação. Acho que isso pode começar a ser vencido na medida que jogadores brasileiros de sucesso na Europa sejam vistos com bom entendimento de jogo e decidam migrar para a carreira de treinador. Por já terem esse hábito de convivência no vestiário. Pensei no Sylvinho como eventual candidato. É um nome que me parece ser possível dentro desse cenário.

E, evidentemente, a questão do idioma. O treinador do futebol brasileiro em geral é um ex-jogador. E o jogador de futebol médio no Brasil tem uma origem de classes sociais menos abastadas. É natural que tenha formação educacional mais restrita – com isso são raros os que tenham fluência em outros idiomas. Algo que pode ser diferente com jogadores que façam carreira na Europa e tenham interesse em se desenvolver culturalmente por lá.

E o outro ponto é que, com a loucura que a gente vive, a insanidade que é o mercado de treinadores, troca de jogadores a todo instante, é muito raro ter um trabalho autoral desenvolvido, algo longo, que chame a atenção.

Que o europeu olhe e diga “estou contratando um treinador que joga assim, de um time que se desenvolve dessa maneira”. Isso não tem, pois é muito raro. O grande passaporte para uma carreira europeia acaba sendo a seleção brasileira mesmo. Tite vai ficar mais um ciclo, se for bem sucedido ao fim dele pode se candidatar. Aconteceu com o Parreira na ida dele, Felipão pós-2002. Acaba sendo esse trajeto”.

Rodrigo Capelo

*Jornalista especializado em negócios no esporte.

“São muitos elementos. Tem a parte da língua que deve ser um dos mais graves. Portugal é uma escola que a gente costuma ouvir muito bem sobre treinamentos, preparação acadêmica, são muito mais avançados nessa área. Eles têm 11 nesse período, o que não é muita coisa em relação aos 435. Tem um que faz um barulho lascado (Mourinho), mas não é um número muito grande. A gente percebe que os latinos têm até entrada um pouco maior nesses mercados, com 5%. A língua é um impeditivo enorme. Há relatos do Felipão no Chelsea com problemas de comunicação, do Luxemburgo no Real Madrid. Para colocar treinador lá primeiro ele precisa é de uma sociedade que falasse inglês, que seus preparadores falassem. Isso é raro. O principal está aí.

Entra também a parte da grana. O salário que se paga aqui para o treinador não é tão baixo: R$ 70 mil em média na Série A. A gente ouve salários de R$ 500 mil, R$ 600 mil. A dúvida é se para o Mano, um dos melhores que temos no Brasil, é melhor para ele pegar um time de meio de divisão na Espanha ou o Cruzeiro? Acho que Cruzeiro.

Sobre ambição: qual treinador declarou publicamente que gostaria de ir para a Europa? Para o jogador o ponto alto é chegar lá, ganhar milhões, até porque ele ganha muito mais proporcionalmente. Não sei se essa ambição existe para os treinadores. Também tem a parte tática: nossos treinadores estão defasados? A impressão é que sim, pela comparação do jogo que se joga aqui e se joga lá. Toda a preparação intelectual dos nossos treinadores é mal formada porque o mercado é assim.

Agora, quantos apareceram publicamente já apareceram para debochar da licença da Uefa? “Ah, fazem cursinho de um ano”. Acho que o nosso treinador nem quer ir para lá, pois nem tem preocupação com a parte acadêmica. Eles acham que futebol é aprendizado de vida, talento nato, a gente tem rejeição muito grande, jornalista que tira sarro e acha que é bobagem”.

Por Victor Canedo para o site GloboEsporte.com

Fonte: Sitrefesp

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